terça-feira, 22 de outubro de 2013

*I do believe in magic*

[Para todas as mamãs e papás que perderam uma fadinha ou um pequeno mago do Amor]



Era uma vez uma Pequena Fada. Era uma Fada, mas era tão pequenina, que todos lhe chamavam Pequena Fada. Ela tinha muita magia dentro dela, e estava sempre a lançar os seus pozinhos mágicos por onde passava. Tinha muitas outras amigas fadas e todas tinham um poder muito especial: havia a Fada da Alegria, a Fada da Esperança, a Fada da Fé, a Fada da Força, e a Pequena Fada era a fadinha do Amor. Ela nunca poderia ser muito grande, porque o seu poder era tão forte, tão forte, que se ela tivesse o tamanho das outras Fadas, esta Pequena Fada poderia explodir o mundo com o seu poder. As Fadas andavam pela Terra, a espalhar os seus pozinhos. Os humanos não as viam, mas elas não paravam: sempre para cá e para lá, quais anjos da guarda de todos aqueles que precisassem. E mal as outras Fadas sabiam que a Fadinha do Amor era das mais aterefadas... Primeiro porque era mais pequenina, e tinha que voar mais do que as outras. Depois, porque pela Terra inteira havia sempre alguém a chamar a Fadinha e a pedir algum do pozinho dela. E ela nunca deixava ninguém ficar mal!

Certo dia, a Fadinha chegou junto de uma menina e um menino que chamaram por ela. Tinham muito amor para dar, mesmo sem o pozinho dela... Ficou intrigada com o casal, e ficou algum tempo junto deles. Percebeu que eles também tinham um pozinho mágico, e espalhavam amor um para o outro e à sua volta. Mas o pozinho deles só podia ser visto pelas Fadas, eles não faziam ideia que tal coisa existia. A Pequena Fada ficou curiosa, e quis saber mais. Tentava chamar-lhes a atenção, mas eles não conseguiam ver a dimensão das Fadas. A Pequena Fada começou a esmorecer...adorava experimentar o efeito do pozinho do Amor deles, e não conseguia falar com eles para lhes pedir. Nem sequer para lhes explicar o que era o pozinho do Amor. Nem ainda que um dos grandes problemas do mundo das Fadas, é que o pozinho de cada uma só funciona nas outras, não nelas próprias. Por isso, a Fadinha não sabia o que se sentia com o poder do pozinho do Amor. Ficou um pouco triste... mas a Fada dos Desejos sentiu, e veio logo ter com a Pequena Fada:

-Fadinha do Amor...o teu coração chamou-me. Precisas do pozinho dos desejos? O que desejas tu?

A fadinha encolheu os ombos,com um ar abatido, e respondeu:

- É que eu queria sentir o pozinho do Amor. Este casal podia-me ajudar, mas... Gostava tanto que eles me pudessem ver e me lançassem o pozinho deles!

A Fada dos Desejos sorriu.

-Sabes, Pequena Fada... eu posso-te ajudar. Posso fazer com que eles te vejam, e acertem com o pozinho deles em ti, se eles assim decidirem. Mas para isso tens sair da dimensão das Fadas e entrar na dimensão deles. Se eu te pusesse na barriga da menina, podias nascer como os humanos nascem. E tenho a certeza que, mal te vissem, não hesitariam em lançar-te o pozinho. O deles também é de uma magia muito forte, como o nosso, mas acho que eles nem compreendem que o têm! É muito raro algum Humano saber isso... Algumas Fadinhas tentaram esta aventura antes, e não conseguiram ficar lá muito tempo. O meu pozinho é forte e consegue-te levar lá... Mas só consegue arranjar-te um corpo pequenino como o que tens agora, e olha que na dimensão deles, um corpinho como o deles desse tamanho é muito frágil. Se tiveres que vir embora rápido...estás preparada? Consegues fazer tudo em pouco tempo?

-Oh, Fada! Sim! Eu faria tudo nem que fosse por um segundo em que eles me pudessem ver e me dessem do pozinho deles... Só queria sentir a magia do pozinho do Amor!

-Então está combinado. E depois não vais ter saudades deles, quando tiveres que voltar para cá?

-Então não vou poder continuar a ir ter com eles sempre que quiser, e sobretudo sempre que eles me chamarem?

-Claro, Pequena Fada...

A Fada dos Desejos não verbalizou a sua preocupação. Mas sabia que o desejo da Pequena Fada em conhecer o pozinho do Amor daquele casal era tão forte, que nem lhe passava pela cabeça que no fim custasse voltar à dimensão das Fadas. Mas não fazia mal... Se fosse preciso, chamariam a Fada da Saudade...

Assim, como combinado, a Fada dos Desejos lançou o pó mágico dela à Pequena Fada, que rapidamente se viu dentro da barriga da menina. Sentiu logo muitos arrepios bons... não sabia bem se já era aquilo que se sentia com o pozinho mágico do Amor, mas sabia que se sentia muito bem. Era um aconchego muito grande, e um enorme prazer ouvir o menino e a menina a conversar e a menina a cantar. Era tão bom saber que a consideravam família, e que estavam a planear muitas coisas para fazerem os 3! Quem lhe dera aguentar-se ali muito tempo...O tempo! Esse, passava rápido naquela dimensão, e não tardou muito a estar do mesmo tamanho que tinha na dimensão das Fadinhas. Pelas conversas que ouvia, percebeu que era suposto ter demorado mais tempo a crescer, ou talvez devesse ter crescido mais, algo assim...

“Mas este era o meu tamanho do outro lado!”-pensava a Pequena Fada. Não percebia, mas sabia que não ia crescer mais, e começava a ficar impaciente... Queria sair da barriga, porque conforme a Fada dos Desejos lhe tinha dito, podia não se aguentar muito tempo. Por isso, nada de desperdícios!

Ficou muito contente quando percebeu que a iam ajudar a sair da barriga, e ia voltar a ver o menino e a menina.

Pediu a ajuda da Fada da Força, e apesar de não a ter visto, sentiu o seu pozinho a fazer efeito. E aguentou tudo naquela dimensão. Com ajuda dos humanos, sim, mas a magia também deu uma mãozinha preciosa! Finalmente, chegou a tão esperada hora... Estava numa caminha muito confortável e apesar de ainda estar a habituar-se a ficar deitada, sem voar e tanto tempo no mesmo lugar, mal pôde pensar nisso... De repente viu uma sombra grande, enorme, mesmo! Abriu ainda mais os olhinhos, e reconheceu-o: era o menino! Mal cruzaram o olhar, a Pequena Fada quase deixou de respirar... Não o viu, mas sentiu o pozinho do Amor do menino percorrer cada célula do seu corpo. Foi a sensação melhor que já tinha tido na sua longa vida de Fada, e, claro, na sua pequena vida na dimensão dos humanos. Foi uma sensação tão avassaladoramente boa, que logo depois teve que descansar. Mas mesmo enquanto dormia, parecia sentir o arco-íris daquela sensação que nunca havia experimentado antes. Por sua vez, o menino percebeu pela primeira vez que tinha aquele pozinho mágico...E ali ficou, fascinado, a vê-lo descer sobre a Pequena Fada, perguntando-se como era possível nunca ter visto aquilo, e nunca ter sentido antes nada assim.

O menino não largava a Pequena Fada, e lançava o seu pozinho, pela primeira vez de forma consciente. Com o olhar, com a voz, com a pontinha dos seus dedos ao tocá-la... Algum tempo depois, a Pequena Fada sentiu o poder do pozinho ficar ainda maior. O que estaria a acontecer? Ah! Era a menina, que se tinha juntado ao menino, e agora ambos lançavam o seu pozinho sobre a Pequena Fada... A menina também estava fascinada com a existência do pozinho mágico. A Pequena Fada queria conversar com eles, e explicar-lhes que também ela sabia lançar o pozinho do Amor. E agradecer-lhes tê-la ajudado a perceber o que os outros sentiam quando lhes lançava a sua magia. Mas as palavras não saíam! Ela fazia o que podia para lhes dizer tudo isto com o olhar, com as mãozinhas, com gestos. Não sabia bem se eles compreendiam, mas como eles continuavam a lançar o pozinho, achou que sim.

A Pequena Fada achou que não seria fácil voltar a sentir algo assim tão bom! E sentiu que tinha criado uma ligação muito importante com o menino e a menina. Mas sabia também que o seu tempo naquela dimensão havia de estar a terminar. E tanto trabalho acumulado que teria na outra dimensão quando voltasse!

Tinha pena de não poder dizer ao menino e à menina que ia ter que partir brevemente... mas talvez eles no fundo soubessem! Talvez...

Teve a certeza que eles não sabiam quando sentiu chegar a sua hora...O seu corpinho começou a projectar-se de novo para a dimensão das Fadas, e muitos outros meninos e meninas parecidos com o seu menino e a sua menina vieram para a volta dela. Não percebiam o que se estava a passar,e não conseguiam ver que que ela estava apenas a começar de viajar entre dimensões... Os Humanos não percebiam nada daquelas viagens! Pediu ajuda à Fada dos Desejos, pois aceitava as condições dela, e sabia que tinha que regressar. Mas queria só despedir-se do menino e da menina!

Por magia, eles apareceram, parecendo ter vindo a correr. A Pequena Fada agradeceu à Fada dos Desejos, e começou a tentar explicar que tinha que partir... Era tão frustrante não conseguir falar ali! Mas os outros meninos e meninas deram uma ajuda... Puseram a Pequena Fada no colo da sua menina, e assim bem juntinhas, apesar de custar muito, conseguiu fazer umas festinhas com a sua mão pequenina no peito da sua menina. Os pozinhos fundiram-se, e criou-se uma luz muito grande entre elas. Muitas Fadas poderosas sentiram aquela energia, e todas quiseram vir espreitar o que se passaria ali... Entretanto o menino juntou-se, e a Pequena Fada juntou mais algumas forças para receber o pozinhos que ambos trocavam com o olhar... Mais Fadas se juntaram, e a Fada do Desejos disse:

-É a hora, Pequena Fada...

Todas as Fadas lançaram os seus pozinhos, e o menino e a menina sentiram tudo o que podiam sentir num só segundo. Não sabiam bem explicar o que lhes tinha acontecido, mas sabiam que tinha sido algo grandioso e especial. Não viam os pozinhos todos, senão tinham compreendido logo!

Entretanto, já a Pequena Fada tinha regressado à sua dimensão, e viu todas as Fadas suas amigas. Sorriu de orgulho no menino e na menina, e ficou contente por ali já conseguir falar:

-Adorei! Adorei... Vocês haviam de experimentar os vossos pozinhos também...É a melhor sensação do mundo!

As outras Fadas estavam cabisbaixas. A Pequena Fada ficou surpresa, e depois percebeu...o menino e a menina choravam muito. Eles não deviam ter percebido o que se tinha passado...só se tinham apercebido da ausência da Pequena Fada. A Fada da Saudade lançava, desesperada, o seu pozinho...mas não estava a resultar... A Pequena Fada ficou triste, e tentou também lançar o seu pozinho. Eles sentiram-no, mas não se conseguiam consolar.

A Pequena Fada manteve-se junto a eles... Não parava de lhes lançar o pozinho mágico e eles na maioria das vezes sentiam-no. Mas a ausência do corpinho dela fazia-lhes confusão. E não percebiam nada daquilo. Mas a Pequena Fada não desistia de lhes tentar explicar, e agradecer a experiência que lhe tinham proporcionado. Tinha sido tão importante para ela sentir tudo aquilo! E como gostava de lhes dizer que estava bem, e que estava sempre com eles...Mas não conseguia falar-lhes. No entanto, falava com borboletas para lhes fazerem uma visita a contas a histórias. Pedia aos passarinhos para lhes explicar a cantar. E lançava magia em todas as coisas que eles viam, para tentar que percebessem. E apesar de não verem a Pequena Fada, à medida que o tempo foi passando, o menino e a menina foram crescendo na certeza de que ela estava com eles. Bastava chamarem-na e ela lá estaria! E agora que sabiam que também tinham um pozinho mágico, acharam que seria uma boa maneira de honrarem a Pequena Fada: lançar o seu pozinho sempre que pudessem, sobre quem pudessem.


E assim passaram o resto da vida em busca da mesma sensação que tiveram na presença da Pequena Fada. Por sua vez, ela assegurou-se de que eles conseguiriam ser felizes para sempre, com ela invisível para eles, mas sempre ao seu lado! E agora tinha a ajuda deles para espalhar o pozinho do Amor pelo mundo. 

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Agora que o Verão está a ir...

...nada melhor do que ficarmos com algumas maneiras de o recordar.

Comprei este set para fazer sorvetes, e estou apaixonada. Faço as minhas mistelas com suminho de fruta e adoçante (tenho sempre a linha em conta) e é só pôr lá dentro, esperar 12h horas, e pimbas: temos gelado!


PS: Nunca deixem de ter em mente que se tiverem que me dar presentes, adoro artigos para a casa... [também gosto de perfumes, cosmética, roupa, livros, etc... não sou esquisita!]

PPS: Obviamente que, por ser sumo de fruta, água e adoçante, não costumo comer só 1 de cada vez :X Shame on me!

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Oh nãoooooooooo!!!!!!!

Eis que a Miss hérnia do meu pescoço quis dar um arzinho da sua graça, e lá resolveu aparecer muito tempo depois. Filha da mãe (porque eu não digo asneiredo), que me deixou quase esquecer estas dores, para agora atacar em força e sem aviso. Paracetamol+relmus+brufen+mais paracetamol e mais relmus e mais brufen, mas nada me vale. A única coisa que me alivia um bocadinho é uma água quente a  correr aqui (mais ai! a "pegada ecológica"!) e a almofadinha de sementes para aquecer que miss Kooka fez (e como é cor de rosa e verde dá muito mais alegria à cena só por si). Geralmente é um dia ou são 2 daqueles muito penosos, em que ando muito direita, e para olhar para os lados só consigo mesmo mexer os olhos. Confesso que deve ser giro ver de fora as minhas figuras a tentar mexer-me. Mas depois vendo cá de dentro....Dói! Ai se dói! As hérnias deviam ser banidas da Terra, que não andam cá a fazer nada.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Amor #2

Adoro estas histórias de amigos improváveis. E são tão frequentes no "mundo animal" :D


quinta-feira, 3 de outubro de 2013

"O tempo passa a voar"...

...dizem...

Não me parece nada. Talvez isso mude quando começar a trabalhar. Está quase... Nessa altura deve entrar o "Fast Forward" de que todos falam.

É que assim de repente, desde Junho, passaram à volta de 3 meses e parecem-me anos... Muitos anos!

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

The Odd Life of Timothy Green







"If you came to me and said there are two people in the world who want you more than anything, that they’ll do their best, they’ll make some mistakes, and you’ll only get them for a short time, but they will love you more than you can ever imagine... well, when that’s true, I’d say so much is possible! "

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

"Sou uma mãe que também perdeu um filho. Quero dizer-lhe que ainda vai ser feliz"


Conheci o livro pela blogosfera, e mal me cruzei com ele numa livraria, sabia que o tinha de comprar... Os timings da vida são fascinantes. E este livro veio no momento certo. É curioso como uma experiência tão forte aproxima tanto pessoas que provavelmente antes não tinham nada a ver umas com as outras. É um marco tão avassalador da nossa história, que de repente nos sentimos íntimos de alguém, só porque ambos passamos pelo mesmo. Não é preciso muito mais...

Revi-me em muitas palavras dos pais do livro. As borboletas brancas, os passarinhos, que nos fazem lembrar os nossos pequenitos que partiram. A abertura dos nossos olhos e do nosso coração à beleza da Natureza, ao aproveitar a calma do sol, da chuva, do nevoeiro, do frio e do calor, ao sentir tudo o que for bonito e se cruzar no meu caminho, tocar-nos de maneirsas nunca antes sentidas. A sede de querer viver tudo o que pudermos, e mesmo o não fazer nada e apenas contemplar, saberem a muito. A vontade de construir algo com a maior dor que já sentimos. A urgência de encontrar um sentido para tudo isto. A vontade de querer avançar, e às vezes não saber bem como. A inércia de por vezes ver o mundo a andar freneticamente, e nós estarmos como que parados no tempo. E a força de cada palavra, cada gesto, cada lembrança relacionada com quem partiu... Como alguém diz no livro a um dos pais, e é bem verdade:

"Não sei como se sobrevive à morte de um filho. Mas achei que, se me acontecesse, gostaria de saber que o meu filho tinha marcado a vida de alguém".

Obrigada a todos os que, diariamente, me contam como a Nô marcou e inspirou as suas vidas.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Prematuridade (e 3 meses sem ti por cá...)

Hoje era a data prevista de parto da Leonor. Em vez disso, faz três meses que ela nos deixou.

Ainda não sei qual terá sido a missão dela por cá, mas acredito que a passagem dela foi importante. Se tentar pensar sobre isso, de uma coisa tenho a certeza: ela trouxe à minha vida uma temática antes quase desconhecida: a prematuridade.

Não fazia ideia da guerra que era. Agora faço... Foi um caminho curto, o meu, mas serviu para compreender a violência da rotina dos pais prematuros.

Viver a Prematuridade com um bebé numa Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais é:

- Conhecer o nosso bebé muito antes do previsto, muito antes de estarmos preparados a vários níveis para o receber.

- Ultrapassar a ideia de que não vamos ter a rotina da gravidez e nascimento de um filho como a maioria das pessoas à nossa volta têm, e como imaginámos nos nossos sonhos e antecipações.

- Conhecer o nosso bebé através de uma barreira física, e gerir o balanço entre o ímpeto de o abraçar e o pavor de o infectar.

- É fazer contas e mais contas, para tentar perceber as prioridades de quem há-de conhecer o filhote primeiro, porque o número de visitas é limitado (na UCIN onde a Leonor esteve era 1 por dia, durante 5 minutos.) Ainda hoje lamento tão pouca gente tê-la conhecido para lá dos vídeos e das fotos.

- É sofrer, como mãe, a cada picada, cada transfusão, cada acto mais invasivo, cada dose de radiação a um corpinho tão pequenino, cada cirurgia (por esta a Nô não chegou a passar).

- É estar nervoso 24/dia (muitas dessas horas ultrapassa-se o nervosismo e passa-se a pânico), não ter fome, não ter vontade de fazer mais nada senão estar ao lado da incubadora, a fazer, no fundo, NADA. A olhar, a cantar, a falar, a AMAR.

- É a dor de sair a porta do Hospital, para dormir, sabendo que não levamos o nosso tesouro connosco, e sentir o vazio em casa... Pois era suposto o bebé sair do casulinho da nossa barriga, para nossa casa. E ele não está já num sítio nem noutro.

- É não conseguir descansar. É dormir umas horas, para o mais cedo possível acordar, tomar banho e vestir à pressa para correr para a UCIN.

- É o aprender realmente o que significa viver um dia de cada vez e fazê-lo na sua plenitude.

- É o pânico de na UCIN haver praticamente sempre um alarme a apitar... É olhar à volta para ver de que bebé é o alarme... Se é do nosso, se do vizinho...Depois de percebermos que é do nosso, perceber se é a saturação, a frequência cardíaca, a frequência respiratória, a sonda que terminou de passar o alimento, a temperatura corporal, a temperatura da incubadora, a humidade...e tentar perceber se é grave, ou uma alteração momentânea ou de mau contacto.

- É muitas vezes tirar leite para ninguém... porque é provável que o bebé venha a precisar, mas ainda não está suficientemente preparado a nível intestinal para começar a receber.

- É sentirmo-nos excluídas da maternidade... Vermos que somos totalmente inúteis para o nosso bebé, e têm que ser pessoas especializadas a "mamã" do nosso filho. São eles que dão o banho, mudam a fralda, alimentam, e nós ficamos de fora, quais seres estranhos ao nosso tesouro, a olhar...

- É manter a esperança para além do que imaginávamos. É ir buscar forças para além do que achávamos possível. É sofrer de maneiras que nunca nos passaram pela cabeça. É viver como nunca previmos. É ver a vida a passar à nossa frente, e nós parecemos estáticos, mas mudamos. Mudamos a forma como vemos a vida, as relações, o amor. Mudamos... apesar do mundo continuar o mesmo.

- É o pânico de, quando não se está na UCIN, receber uma chamada. 

Nós só recebemos uma, mas foi a chamada mais dura que recebi na vida. E provavelmente a mais dura que receberei... 

Tocou o telemóvel do AF, eram 5 da manhã. Acordámos estremunhados, e ele não foi a tempo de atender a chamada. A seguir tocou o meu. Não havia dúvidas do que seria...

- "Mamã, a Leonor não se está a portar lá muito bem... Se calhar era melhor virem"

Não me lembro de me vestir. Lembro-me de chorar, de repetir para mim "tudo há-de correr bem" mil vezes, para mim e em voz alta. Disse-o até à entrada do Hospital. Disse-o para mim própria, quando a médica disse que as coisas não estavam famosas... Que provavelmente era o fim. Quando a enfermeira disse o mesmo. Quando percebi que nos estavam a tratar com pena. Quando percebi que já não se preocupavam com as infecções, e me iam deixar pegar nela. Repeti-o até à exaustão, enquanto a tinha ao meu colo, e via as frequências cardíacas no monitor variarem entre 30 e 200 em gráficos malucos. "Tudo há-de correr bem, Leonor!". Disse-o para mim mesma quando a máquina deu frequência cardíaca zero. Acreditei que era mais um mau contacto das máquinas... Acreditei até a Leonor partir.

E depois de tudo isto, tenho para mim que o devo continuar a repetir até ao fim dos meus dias: 

"Tudo há-de correr bem!".



terça-feira, 24 de setembro de 2013

domingo, 22 de setembro de 2013

Amor # 1



A tartaruga que queria fazer amigos :) E encontrou-os. Amigos improváveis, mas encontrou!